
Por Gabriele Oliveira de Souza
Em Cinco da tarde, Eduardo Nunes fala sobre luto e conexões usando Niterói como personagem. O filme, estrelado por Bárbara Luz e Sharon Cho, conta a história de Anabel, uma adolescente de dezessete anos que, após perder a sua avó, começa a se conectar com a Meiko, vizinha a qual nunca se comunicava. Dessa forma, a adolescente procura meios de lidar com a perda.
Anabel se vê atordoada pelo luto. Em sua tentativa de se aproximar de Meiko, surpreende-se por não conhecer o mundo de sua própria avó. No início, Anabel ainda parece um pouco distante de Meiko. A direção de Eduardo Nunes faz com que os corpos dentro de cena pareçam relutantes no início, demonstrando o nascente sentimento entre Anabel e Meiko. Anabel, confusa, conversa com a vizinha, uma em cada canto do sofá. Cenas que se repetem no filme construindo uma relação baseada no diálogo.
A relação de Anabel com o espaço em que está inserida dentro do campo do filme também é um ponto positivo. A casa de Meiko parece ser um ambiente bem mais claro, aconchegante, e até maior do que a casa da amiga, como diz a própria personagem. Meiko aparece poucas vezes na casa de Anabel, colocando-se no canto do quadro e hesitante em invadir o espaço da vizinha. O ponto de luz no meio da cena chama atenção e causa uma sombra em Anabel e uma luz em Meiko. O sentimento que Anabel desenvolve de início por Meiko é de revolta, a personagem sente não conhecer a avó o suficiente.
A fotografia também é uma ferramenta utilizada para despertar a relação entre as duas jovens. A escolha em fazer o filme em preto e branco, além de refletir o luto sofrido por Anabel, serve também para enfatizar e demarcar o rosto das personagens, trazendo a suavidade quando é necessário e também as sombras, em uma das cenas mais marcantes do filme. No momento em que Anabel e Meiko estão olhando para o céu, no banco do parque, o preto e branco demonstram uma certa leveza, a iluminação voltada para as duas personagens mostra a evolução de Anabel após conhecer um espaço tão importante de Meiko, a floricultura.
Os espaços nesse filme também refletem a dor da perda sofrida por Anabel. A adolescente revisita a memória de sua avó de quando o prédio em que morava era um cinema. Ela resolve reproduzir o pensamento da matriarca e olha a entrada do parque ao sair do prédio como se estivesse saindo do cinema. A avó de Anabel morou a vida inteira no mesmo quarteirão. Aqui, o espaço se torna um personagem sujeito à mudança, a relação que a protagonista tem com aquele lugar passa a ser mais humanizada. Esta é uma das formas que Anabel encontra de encarar o seu espaço como uma grande memória.
Aos poucos, Anabel e Meiko vão se adentrando uma no espaço da outra. Apesar de, na maioria das vezes, dividirem o mesmo quadro, a relação que antes era de estranheza e confusão vai se tornando mais amigável, tanto que a adolescente não precisa falar explicitamente da perda da avó. Meiko resolve acolhê-la nesse momento difícil.
O filme tem o seu próprio tempo de processar o luto. O segundo ato do filme consegue ser bem mais dinâmico e interessante que o primeiro. Quando os sonhos de Meiko e Anabel se atravessam e seus entes queridos falecidos são apresentados, o filme ganha mais forma e o espectador adentra mais no universo de cada uma delas. É bonito ver o corpo das duas explodindo na tela quando começam a dançar ao som da banda Paralamas do Sucesso, Ska, uma música que casa bem com o filme ao falar sobre o fim e a vida.
O filme utiliza o cotidiano para falar de luto. A vida da adolescente Anabel muda do dia para noite e os espaços que ela reconhecia não são mais os mesmos. Meiko é como uma luz para Anabel, ajuda a protagonista a encarar a fase que a vizinha já havia passado há um tempo atrás. O longa demonstra que o luto pode ser um acontecimento que une todo o ser humano comum. Uma conexão pode surgir dos lugares mais obscuros de nossa alma.
