
Por Phillipe Carpina
Há filmes que se contam; outros que se respiram. E Cinco da tarde, terceiro longa de Eduardo Nunes (Sudoeste, Unicórnio), com certeza pertence ao segundo grupo. Com o filme sendo mais próximo de um ensaio poético do que de uma narrativa convencional, com a obra se instalando na zona fronteiriça entre a vida e a morte, entre quem se foi e os vivos que teimam em ficar. E o que mais me chamou a atenção, o faz sem pressa – na contramão total do imediatismo e automatismo que impera na vida contemporânea, e, consequentemente, no cinema.
A premissa é singela. Anabel (Bárbara Luz), acaba de perder sua avó, que é uma figura central em sua existência, e com quem ela morava no momento do óbito. No isolamento da pandemia – que, infelizmente, conhecemos bem – Anabel se aproxima de Meiko (Sharon Cho), uma vizinha tímida que trabalha em uma floricultura que sua avó frequentava. Bem aos pouquinhos, essa amizade nasce e se aprofunda, revelando sentimentos ocultos, semelhanças improváveis, culminando em uma conexão que transcende o óbvio. No decorrer da trama descobrimos que ambas carregam perdas recentes – a avó de Anabel, a mãe de Meiko – e é exatamente nesse vazio compartilhado que o vínculo entre as duas nasce, cresce e se fortalece.
O que Nunes constrói, porém, não é um drama psicológico comum, convencional, mas um espaço ficcional singular onde vivos e mortos coabitam. A ambientação na pandemia de COVID-19 não é mero pano de fundo: o isolamento, as máscaras, as ruas desertas, configuram um “não-lugar”, um limbo existencial e emocional que propicia e potencializa o estado de suspensão das protagonistas. Seja o apartamento da avó, o Campo de São Bento, ou a igreja Porciúncula de Sant’Ana – a própria arquitetura dos espaços se torna personagem.
Visualmente, o filme é bem sólido e assertivo. A fotografia em preto e branco de Mauro Pinheiro Jr. – que é altamente matizada, com raras, mas bem-feitas, inserções de cor – depura a imagem, despojando-a do supérfluo. Cada quatro é composto por um rigor milimétrico, que se mantém durante todo filme: a câmera observa bem mais do que interfere, privilegia o ambiente antes das entradas das personagens e se demora depois que elas saem de cena. Planos fixos longos, transições suaves entre a realidade e a fantasia – e dizer que é uma miragem não seria inadequado – junto de um desenhista de som imersivo, tudo concorre para uma atmosfera totalmente contemplativa.
As atuações acompanham bem o tom, com Bárbara Luz entregando uma interpretação intensa e contida – às vezes até demais – enquanto Sharon Cho, em sua estreia no cinema, surpreende com uma sutileza extremamente tocante.
E chegando próximo do fim, é o momento de falar sobre a maior virtude do filme, e que para muitos pode ser um desafio. Cinco da tarde não tem um enredo espetacular, fora do comum, não grita por nenhuma causa, não apela para a emoção fácil ou blasé. É, antes de tudo, uma reflexão poética sobre o que fica, sobre quem fica, como fica. Seu ritmo é lento, os diálogos flertam com o minimalismo, e não há um conflito claro que funcione como fio condutor. O espectador torna-se, por vezes, um mero observador dessa rotina que pode soar entediante em seus momentos mais fleumáticos. É uma obra que exige entrega, e que testa a paciência de quem busca narrativas mais ágeis. Mas para quem se dispõe a embarcar nessa jornada, Cinco da tarde oferece algo muito raro no momento em que nos encontramos: um sussurro num cinema que cada vez faz mais questão de gritar, principalmente na era de disputa de atenção com Tik Tok, YouTube Shorts e análogos.
Concluo que é uma obra de beleza visual impactante e de sensibilidade sofisticada, mas que em troca exige um espectador disposto a abrir mão da pressa e de se entregar ao silêncio.
